Denúncia

Justiça afasta policiais após denúncias de agressão e homofobia no Carnaval de Salvador

Professor relata agressões físicas, ofensas homofóbicas e enforcamento durante abordagem no circuito Dodô; quatro policiais militares foram afastados por decisão judicial e caso é investigado pela Corregedoria e pela Polícia Civil.
19/02/2026 17:30
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(foto: Arquivo pessoal)

Professor relata ter sido agredido por policial e afirma ter ouvido a ofensa homofóbica “viados da desgraça

O brilho do Carnaval de Salvador foi atravessado por um episódio grave de violência que agora está sob investigação judicial e policial. Quatro policiais militares foram afastados cautelarmente após denúncias de agressões e homofobia no circuito Dodô (Barra-Ondina), nas imediações do Morro do Gato.

O caso ocorreu no sábado (14), por volta das 23h40. O professor João Vitor Dias da Cruz, 27 anos, afirma que estava com o marido, soldado da PM, e amigos atrás do trio da banda Papazoni quando começaram as provocações.

“Eu e meu esposo estávamos dançando abraçados quando um homem começou a nos chamar de ‘essas laelas’ e ‘viados da desgraça’. Ao mesmo tempo, ele chamou a esposa do nosso amigo de ‘puta’. Meu marido foi defender o colega, que também é policial.”

Segundo João, a chegada da guarnição 1007 da bPatamo marcou o início das agressões físicas.

rofessor denuncia agressão durante abordagem policial no Carnaval.
/ Arquivo pessoal

“Eles chegaram já batendo. Levei quatro golpes de cassetete. Nosso amigo teve o rosto deformado. Mesmo depois de se identificar como policial militar, as agressões continuaram.”

O policial ferido foi encaminhado ao Hospital Geral do Estado (HGE), onde passou por cirurgia de reconstrução do maxilar e permanece internado em observação.

Condução forçada e ofensas

João e o marido foram conduzidos por outra guarnição, identificada como 1425. O professor relata que foi imobilizado com o braço torcido, mesmo sem reagir.

“Reclamei de dor e um aluno-oficial mandou eu calar a boca, me chamou de ‘viado da desgraça’ e disse que eu ainda não tinha visto o que era violência.”

Ele afirma que gravou parte da condução, mas uma aluna-oficial retirou o celular de suas mãos.

Após aguardarem no módulo policial para relatar o ocorrido, o casal foi levado ao PRT, espaço interno utilizado por policiais em serviço. Lá, segundo o relato, o soldado foi enforcado por um aluno-oficial antes da chegada de um capitão.

“Eles não justificaram as agressões. Apenas negaram.”

O soldado foi preso sob alegação de indisciplina, passou por audiência de custódia e foi liberado com medidas cautelares.

João Vitor relata ter sido atingido por quatro golpes de cassetete.
/ Arquivo pessoal

Decisão judicial e investigação

Na decisão que determinou o afastamento cautelar de quatro policiais, o juiz destacou a gravidade das acusações. Ele mencionou que as ofensas homofóbicas, mesmo após identificação formal como policiais e sem resistência, podem configurar injúria racial por homofobia.

Além dos quatro afastamentos, o magistrado determinou que outros integrantes das patrulhas envolvidas também sejam afastados caso sejam identificados ao longo das investigações. A Corregedoria instaurou inquérito policial militar, com prazo de 60 dias.

A 7ª Delegacia Territorial do Rio Vermelho também apura o caso. Em nota, a Polícia Civil informou que oitivas e diligências estão em andamento.

oão sofreu agressões e ofensas homofóbicas.
/ Arquivo pessoal

“Não é suficiente”

Para João Vitor, a decisão representa um avanço, mas não encerra o caso.

“Eles agrediram colegas de farda que se identificaram. Isso é muito grave. O afastamento não é suficiente.”

Ele afirma que formalizou representações nas esferas civil e militar e pretende levar o caso ao Ministério Público e à delegacia especializada em crimes raciais e delitos de intolerância.

Procurada, a Polícia Militar informou que não compactua com desvios de conduta e que os fatos serão apurados com rigor.

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