
Bernardo Dugin
O ator e autor Bernardo Dugin fez o seu retorno aos palcos cariocas com uma nova temporada de Hétero Sigilo, espetáculo que entrou em cartaz na última quinta-feira (7), e se estenderá até o dia 29 de maio, no Teatro Glaucio Gill, no Rio de Janeiro. A peça, que mistura humor, vulnerabilidade e crítica social, retoma as atividades após uma repercussão positiva nas temporadas anteriores e um crescente interesse do público nas redes sociais.
Para além de um monólogo autobiográfico, o espetáculo foi desenvolvido através de uma experiência pessoal marcada pela violência LGBTQIAPN+, ao qual o multiartista de 36 anos, decidiu transformar em dramaturgia. Segundo ele, o processo exigiu cuidado para que a dor não fosse convertida em um mero espetáculo.
"Foi um processo muito delicado, porque eu não queria transformar a dor em espetáculo gratuito. O que me interessava era entender o que aquele episódio dizia sobre silêncio, medo, vergonha e pertencimento", explica o artista, em entrevista exclusiva ao Observatório G. "A dramaturgia nasceu justamente desse conflito entre o desejo de esconder e a necessidade de falar", acrescenta.
Ao revisitar memórias traumáticas, Bernardo Dugin observou que a experiência ultrapassava seu íntimo, e antes da estreia nos palcos, relatos compartilhados nas redes sociais já revelavam um forte movimento de identificação coletiva: “As mensagens eram muito parecidas entre si: pessoas falando sobre vidas duplas, medo de decepcionar a família, relacionamentos escondidos, culpa e vigilância constante sobre o próprio comportamento”, conta.
Em cena, Hétero Sigilo discute como a heteronormatividade impacta diretamente a construção emocional de homens LGBTQIAPN+, em destaque à masculinidade. "Ainda existe uma cobrança histórica muito forte sobre masculinidade. Muitos homens LGBTQIAPN+ crescem aprendendo que precisam performar dureza, controle, virilidade e até uma certa negação emocional para serem aceitos", declara.
A discussão foi fortalecida graças ao do perfil homônimo, criado nas redes sociais antes da estreia do espetáculo. O personagem, que performava uma masculinidade "viril", enquanto vivia desejos reprimidos, rapidamente alcançou milhões de visualizações. Para Dugin, o sucesso do projeto revelou uma contradição social muito mais profunda do que aparenta.
"A peça acabou abrindo uma discussão que vai além da sexualidade. Ela toca numa construção histórica sobre masculinidade e desejo. (…) A heteronormatividade não afeta apenas quem reprime a própria sexualidade. Ela também molda aquilo que desejamos", afirma.

O ator acredita que a repercussão da obra está ligada à forma como ela expõe as relações entre poder, desejo e validação masculina dentro e fora da comunidade LGBTQIAPN+. "Existe uma hierarquia simbólica da masculinidade muito forte na sociedade, e ela atravessa inclusive os afetos dentro da comunidade", aponta. "No fundo, ‘Hétero Sigilo’ fala sobre o quanto a norma não controla apenas comportamentos. Ela também organiza imaginários, desejos e fantasias", destaca.
Em meio a um cenário político cada vez mais polarizado em pleno eleitoral, e com o fortalecimento de discursos conservadores, Bernardo Dugin também enxerga o teatro como espaço de escuta e humanização. "A arte tem a capacidade de humanizar debates que muitas vezes acabam reduzidos a slogans ou disputas ideológicas. O teatro cria uma experiência coletiva de escuta, e isso ganha ainda mais relevância em períodos de radicalização social", diz.

Conhecido também por trabalhos em novelas, produções de época e séries bíblicas na Globo e Record, Bernardo afirma que deseja continuar explorando personagens emocionalmente complexos no audiovisual: "Tenho muita vontade de interpretar personagens contraditórios, que sustentem uma imagem social enquanto vivem conflitos internos intensos. Ainda existem muitas possibilidades pouco exploradas quando falamos de homens mais sensíveis, vulneráveis ou emocionalmente complexo", revela.
Para ele, o ato de assumir pautas LGBTQIAPN+ publicamente no mercado audiovisual reforça um preconceito estrutural e histórico do campo, ainda que de forma menos explícita atualmente. "Em alguns contextos, assumir determinadas pautas pode gerar resistência; em outros, pode aproximar artistas de projetos mais alinhados com diversidade e representatividade", avalia.
O sucesso de Hétero Sigilo, segundo Bernardo, representa, também, uma virada importante em sua trajetória artística, visto que o espetáculo abriu espaço para uma criação mais autoral, íntima e politicamente consciente. "Tenho vontade de continuar explorando temas ligados à identidade, masculinidade, desejo, afeto e pertencimento, mas sempre fugindo de discursos simplistas”, afirma. "Acho que diversidade, quando aparece de maneira profunda e não apenas ilustrativa, tem potência para transformar tanto quem faz quanto quem assiste", pontua.

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