Entrevista

Banheiro de avião, "iFood amarelo" e ghosting: Marco Rocci transforma histórias do Grindr em livro

Livro reúne histórias inspiradas em experiências reais e aborda sexo, ghosting, solidão e a busca por conexão entre homens gays
05/09/2026 13:00
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O Pegador do Grindr(foto: Divulgação)

O Pegador do Grindr (Foto: Divulgação)

Uma pegação no banheiro de um avião foi o ponto de partida para Marco Rocci transformar anos de encontros, contatos casuais e situações inusitadas vividas por meio de aplicativos de relacionamento em um livro. O episódio, que poderia ter terminado em mais um áudio enviado aos amigos acompanhado da se tornou o primeiro capítulo de O Pegador do Grindr, livro de estreia do autor, publicado pela Editora Labrador.

A obra, que está em pré-venda desde 3 de agosto, chega oficialmente às livrarias neste próximo domingo (6), data informalmente celebrada como o Dia do Sexo. Ao todo, a literatura reúne 22 crônicas inspiradas em vivências reais que atravessam sexo, desejo, fetiches, perrengues, ghostings, solidão e, sobretudo, a dificuldade de construir vínculos em uma época marcada pelas relações escassas.

A primeira experiência fez Rocci perceber que havia algo maior por trás das histórias que, até então, ficavam restritas às conversas com os amigos. "A história que me fez decidir escrever foi uma pegação num avião e é exatamente com esse caso que o livro começa. Achei aquilo tão surreal que, quando voltei pro meu assento, tirei o celular do bolso e comecei a fazer uma lista dos outros casos que eu já tinha vivido", conta, em entrevista exclusiva ao Observatório G.

A lista, inicialmente improvisada durante a viagem, revelou uma quantidade de histórias. Mais do que reunir aventuras sexuais, a intenção passou a ser construir uma narrativa sobre momentos distintos de sua relação com a própria sexualidade e com a busca por afeto.

"A obra não é uma coletânea de contos eróticos, mas reúne 22 peças do quebra-cabeça de uma jornada de autoaceitação, exploração da sexualidade e todas as frustrações que vieram a partir dos ‘encontros casuais e desencontros afetivos’", explica Rocci. Transformar experiências íntimas em literatura também significou encontrar uma maneira de preservar a essência das histórias sem fazer da publicação um diário pessoal.

"Foi a única forma de não me autocensurar. Eu me comprometi a escrever as histórias sem filtros para ser fiel à essência dos acontecimentos e tentar retratar uma realidade que milhares de homens gays também enfrentam", afirma o autor. A estratégia também permitiu que o autor encarasse episódios difíceis de sua própria trajetória.

Deste modo, para que O Pegador do Grindr não se transformasse simplesmente em um diário, Rocci tentou deslocar o foco de sua própria trajetória para experiências que pudessem encontrar ligação na vida de outros homens gays. Nomes, profissões, cidades e frases foram alterados, enquanto alguns personagens nasceram da combinação de diferentes pessoas.

Apesar de o sexo estar presente em todas as histórias, Rocci faz questão de destacar que a obra não pretende ser apenas um catálogo de aventuras sexuais. "No meu caso e no de muitos homens acima dos 30 anos, o sexo casual e os aplicativos foram uma das primeiras formas de se entender como homem gay. Omitir isso ou mesmo suavizar os trechos explícitos seria hipocrisia", avalia.

"iFood" amarelo?

A metáfora usada por Rocci para falar sobre os aplicativos é provocativa. Para ele, o Grindr funciona como uma espécie de "iFood amarelo": assim como o aplicativo de delivery promete entregar uma refeição rapidamente, os aplicativos de pegação podem facilitar o encontro entre duas pessoas.

"O iFood amarelo entrega alguém na sua cama em trinta minutos. O problema nunca foi conseguir uma ‘refeição’, mas tudo o que vem depois dela. É disso que o livro trata", brinca.

O Pegador do Grindr
O Pegador do Grindr (Foto: Divulgação)

Processo criativo

A estreia literária é resultado de quase quatro anos de trabalho, cujo processo foi prazeroso, mas exigiu, também, disposição para revisitar experiências nem sempre confortáveis. Além da elaboração do livro, o autor também decidiu assumir uma parte significativa do trabalho de divulgação da obra.

A criação de conteúdo orgânico para as redes sociais e tentar fazer o livro chegar ao público se tornou mais um desafio, principalmente diante das restrições impostas pelas próprias plataformas a conteúdos relacionados à comunidade LGBTQIA+. "Prefiro encarar todo esse trabalho a ver o livro morrer nas prateleiras", declara.

Identificação

Através dos capítulos, Rocci pretende abordar as próprias "tragédias", e, ao invés de transformar os episódios em relatos de sofrimento, convida o leitor a rir junto com ele, e garante que, para quem já passou por ghostings, encontros frustrantes, relações tóxicas ou simplesmente pela sensação de estar procurando alguém em meio a tantas possibilidades que os aplicativos oferecem, não há ninguém sozinho nessas situações.

"Eu conto um pouco das minhas tragédias e convido o leitor pra rir comigo do que eu passei, mas acaba sendo uma oportunidade também de reavaliar as próprias dores e relações tóxicas e encontrar formas de superar essas situações", pontua.

Marco Rocci
Marco Rocci (Foto: Divulgação)

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