
Acordar no Brasil com a sensação de que quase metade do país não se importa com a existência e a segurança da comunidade LGBTQIA+ não é fruto de pessimismo, mas sim do reflexo cotidiano de quem sente a violência na pele. Para a nossa população, apoiar lideranças e governos abertamente homofóbicos e transfóbicos vai muito além de uma divergência de opinião política: é uma escolha que impacta diretamente o direito fundamental à vida.
Não existe espaço para o rótulo de "gay friendly" quando a mão que estende o apoio político fortalece quem nos quer invisíveis ou mortos. O viés conservador e exclusionário que marcou anos recentes no país deixou marcas profundas, reavivando o medo diário de andar nas ruas e expondo a fragilidade das políticas públicas de proteção à diversidade.
A dor dessa realidade não é abstrata, ela tem nome, cor e história. O Brasil continua sendo um dos países que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo, e a brutalidade atinge de forma ainda mais cruel a interseção entre raça e sexualidade. Amigos, irmãos e companheiros têm suas vidas ceifadas por crimes de ódio que, frequentemente, caem no esquecimento das investigações e viram apenas mais um número em relatórios anuais — mais um homem negro e gay assassinado impunemente.
O discurso em defesa da "família tradicional" cai por terra quando confrontado com a realidade. A pergunta que fica é: a família de quem? Por que a vida e o luto de uma mãe LGBTQIA+ ou de amigos que perdem um irmão de alma valem menos do que a moralidade seletiva de quem prega a ética dentro de casa, mas apoia a violência do lado de fora?
Refletir sobre o país que estamos construindo exige encarar essa hipocrisia de frente. Empatia não é um conceito abstrato; ela se demonstra nas escolhas, no posicionamento e no recusa absoluta em tolerar discursos que atentem contra a existência humana. Continuar existindo e cobrando justiça é, acima de tudo, o nosso ato diário de resistência.

