Oscar

Feito Pipa: quando uma infância queer encontra seu próprio vento

Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton, transforma a história de Gugu em um delicado retrato sobre infância, afeto, liberdade e pertencimento.
18/09/2026 11:57
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Uma história de afeto e pertencimento

Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional, Feito Pipa, com o roteiro de André Araújo e Camila Agustinide, e a direção de  Allan Deberton, emociona ao falar de infância, liberdade, família e pertencimento.

Há algo bonito no nome Feito Pipa. Uma pipa precisa de vento para subir. Existe uma linha que tenta conduzi-la, mas existe também o desejo de ganhar o céu e descobrir até onde é possível chegar. Talvez essa seja uma boa imagem para falar de Gugu, personagem que está no coração do filme.

Feito Pipa coloca uma criança queer no centro de sua narrativa sem transformar sua existência apenas em discurso ou sofrimento. Gugu simplesmente existe. Ele gosta de futebol, dança, maquiagem, brinca, sonha e ama profundamente a avó. Não precisa escolher entre jogar bola e gostar de maquiagem. É o mundo dos adultos que insiste em estabelecer regras sobre como um menino deveria se comportar.

E é justamente nessa simplicidade que o filme encontra sua força. Antes de representar qualquer ideia, Gugu é uma criança querendo viver, brincar e ser amada como é.

Yuri Gomes interpreta esse menino com uma doçura impressionante. Sua atuação é natural, delicada e cheia de pequenos detalhes. Quando Gugu está feliz, sentimos sua alegria; quando percebe que seu universo está ameaçado, muitas vezes Yuri precisa apenas de um olhar para nos aproximar de sua dor. A câmera respeita esse silêncio e não tenta explicar o personagem o tempo todo. Primeiro conhecemos Gugu. Depois percebemos o peso das expectativas que os outros colocam sobre ele.

A relação com a avó Dilma, interpretada por Teca Pereira, é outro ponto emocionante. Existe entre os dois uma cumplicidade construída nos gestos, nos carinhos e na liberdade que Gugu encontra ao lado dela. Dilma é seu porto seguro. Por isso, quando sua saúde começa a se fragilizar, não tememos apenas que ele perca a avó, mas também o lugar onde pode existir sem pedir licença para ser quem é.

Lázaro Ramos também merece destaque como Batista, pai de Gugu, um homem confrontado por um filho que não corresponde às expectativas tradicionais de masculinidade que aprendeu a reconhecer. Sua presença no filme ainda despertou em mim uma lembrança especial. Tive a honra de conhecer Lázaro durante A Feira do Livro de 2025, no Pacaembu, quando eu cobria o evento para o Estúdio Homies. Na ocasião, ele participou como ator e escritor, falando sobre Na Nossa Pele: Continuando a Conversa. Eu já admirava seu trabalho.

Agora, Feito Pipa inicia uma nova viagem ao representar o Brasil na corrida pelo Oscar 2027. Isso ainda não significa uma indicação oficial, mas coloca o filme em um caminho importante. E confesso que estou confiante e torcendo para que essa história chegue ainda mais longe.

Há algo muito simbólico em imaginar uma produção LGBTQIAPN+, protagonizada por uma criança queer do Ceará, alcançando uma das maiores vitrines do cinema mundial. O filme fala de preconceito, mas permite que Gugu também ria, jogue futebol, dance, use maquiagem, ame sua avó e, principalmente, seja criança.

Gugu não precisa representar todas as crianças queer. Precisa apenas ter o direito de ser Gugu.

Talvez ele seja mesmo como uma pipa. Podem tentar controlar sua linha e determinar sua direção, mas algumas crianças encontram seu próprio vento.

E voam.

Quem sabe esse vento não leve Feito Pipa até o Oscar?

Cultivando minha Ilha.. Eu Sinto...

Lázaro Ramos e Yuri Gomes/ Via Uol

Yuri Gomes e Teca Pereira/ Via Uol

Eu e Lázaro Ramos

Silvia Diaz , é Atriz, Performer, Dramaturga e Roteirista. Estudou interpretação Teatral(Unirio). Graduada em Produção Audiovisual(ESAMC). Dramaturgia ,SP escola de Teatro. Apenas uma Artista que vende sonhos em dias cinzentos.

E quando os dias não os dias não forem tão trevosos, ainda assim continuarei a vender meus sonhos!! Cores, abraços, afetos, lua em aquário. Fluindo .

Cultivando minha Ilha.. Eu Sinto…

Instagram @silviadiaz2015

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