(foto: Foto: Ronaldo Gutierrez)Eu ainda era uma menina, estudante de teatro quando assisti, pela primeira vez, a Romeu Romeu, de Ronaldo Ciambroni. Era o final da ditadura militar, um período atravessado por silêncios, censuras e preconceitos profundamente arraigados. Amar já exigia coragem; amar alguém do mesmo sexo significava enfrentar não apenas a repressão social, mas também a violência simbólica de uma sociedade que insistia em negar determinadas existências. Ao transformar Romeu e Julieta em uma história de amor entre dois homens, Ciambroni realizou mais do que uma releitura provocadora: criou um manifesto poético e político sobre liberdade, desejo e afeto. Sua dramaturgia questionava, de maneira direta e sensível, por que o preconceito deveria determinar quem merece amar.
Passadas décadas, Romeu e Romeu – Por Essa nem Shakespeare Esperava retorna aos palcos em nova montagem no Teatro Itália e reafirma a impressionante atualidade do texto. Embora a comunidade LGBTQIAPN+ tenha conquistado direitos, visibilidade e espaços historicamente negados, a homofobia permanece presente no Brasil e no mundo. Revisitar a obra de Ciambroni, portanto, é também reconhecer a importância dos artistas que desafiaram a intolerância quando fazê-lo ainda significava correr riscos reais. Foram vozes como a dele que abriram caminhos para que novas gerações possam viver seus afetos com menos medo e mais dignidade.
A direção de Rogério Fabiano compreende a potência política do texto sem abrir mão da delicadeza. A encenação encontra equilíbrio entre humor, lirismo e crítica social, transitando entre momentos de leveza e passagens de forte impacto emocional. Há uma fluidez cênica que impede a peça de se acomodar em qualquer zona de conforto; o espetáculo permanece vivo, pulsante, em constante diálogo com o público.
Um dos aspectos mais marcantes da montagem é o trabalho corporal do elenco, construído com precisão e entrega. Guilherme Chelucci e Pedro Pilar evitam caricaturas e compõem personagens profundamente humanos. A relação entre Romeu e Zinho surge carregada de verdade emocional, revelando não apenas o romantismo da trama, mas também a vulnerabilidade de dois corpos que insistem em existir e amar apesar das violências ao redor.
Também merece destaque a atuação de Juan Alves, cuja presença cênica alia delicadeza e intensidade, revelando um artista de grande potência expressiva. Já , Marcio Louzada e Wallace Guimarães colaboram para a construção de imagens visualmente impactantes, compondo uma estética quase pictórica, em que o corpo se torna elemento central da narrativa.
A influência do grupo Dzi Croquettes aparece de forma evidente na encenação, especialmente na valorização da irreverência, da liberdade estética e da ruptura de padrões normativos. Esse diálogo ganha ainda mais força com a presença de Ciro Barcelos na direção de movimentos e figurinos, estabelecendo uma conexão direta com a tradição de um teatro brasileiro contestador, político e profundamente libertário.
O encerramento do espetáculo possui força simbólica inequecível. A entrada de Ciro Barcelos em cena, seguida pela presença de Ronaldo Ciambroni, recebido sob aplausos calorosos, transforma o palco em espaço de memória e reconhecimento. Não se aplaude apenas o dramaturgo, mas toda uma trajetória de resistência artística. Ver Ciambroni ali, digno e emocionado, foi também testemunhar a permanência de uma obra que atravessou décadas sem perder sua potência.
Se hoje existem avanços nas discussões sobre diversidade e direitos LGBTQIAPN+, eles não aconteceram por acaso. São fruto de longas batalhas culturais e políticas, das quais obras como Romeu e Romeu fazem parte de maneira decisiva. Ainda que o preconceito persista, há mudanças importantes na forma como essas histórias são contadas, encenadas e recebidas.
Nesse sentido, Romeu e Romeu permanece não apenas como espetáculo teatral, mas como símbolo de coragem e permanência. Uma obra que fala sobre amor, mas sobretudo sobre resistência. Evoé.
Cultivando minha Ilha.. Eu Sinto…



Silvia Diaz , é Atriz, Performer, Dramaturga e Roteirista. Estudou interpretação Teatral(Unirio). Graduada em Produção Audiovisual(ESAMC). Dramaturgia ,SP escola de Teatro. Apenas uma Artista que vende sonhos em dias cinzentos.
E quando os dias não os dias não forem tão trevosos, ainda assim continuarei a vender meus sonhos!! Cores, abraços, afetos, lua em aquário. Fluindo .
Cultivando minha Ilha.. Eu Sinto…
Instagram @silviadiaz2015
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