(foto: Reprodução/Instagram)Cecília, Thalyta e os filhos
Família é a base principal para qualquer ser humano. Durante o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, histórias ganham visibilidade no Brasil de todas as formas, sejam elas na sociedade ou no campo científico. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), cerca de 1 em cada 10 ciclos de fertilização in vitro (FIV) já é realizado por casais do mesmo sexo, refletindo um cenário em que este método se consolida como caminho para a construção parental.
Nestas centenas de milhares de histórias, existe a da psicóloga Cecília Magalhães, de 44 anos, e da sua esposa Thalyta, de 40, mães de um casal de gêmeos, de 6 anos, e de um caçula, de 2. O sonho da maternidade, que para Cecília sempre foi um projeto de vida, encontrou na união a construção compartilhada de uma família.
Em entrevista exclusiva ao Observatório G, Cecília resume o seu desejo de construir uma família como algo antigo. "Eu sempre sonhei em ser mãe, era o meu objetivo de vida. E tive a felicidade de no meio do caminho encontrar a Thalyta, que embarcou comigo nessa missão desafiadora que é o maternar", afirma.
Até alcançar a tão sonhada maternidade, a profissional não esteve livre de incertezas, e o casal destaca a ansiedade em torno do sucesso do procedimento. "O receio é o de fazer todos os processos necessários para que uma FIV pudesse dar um positivo e mesmo assim não conseguir engravidar", relata.
Apesar disso, elas afirmam que nunca enxergaram a reprodução assistida como um obstáculo, e a chegada dos filhos trouxe transformações profundas na rotina e na dinâmica do casal. “Ficamos tão envolvidas na criação deles que acabamos não tendo mais tempo uma para a outra. Por isso, tentamos sair de vez em quando só nós duas, para programas onde podemos nos olhar com calma e mais carinho”, contam.

No cotidiano familiar, a forma como os filhos compreendem a própria história também é parte importante da criação. Cecília e Thalyta explicam que o diálogo é constante, e foi introduzido desde cedo, com o objetivo de impedir questionamentos sobre invalidação. "Desde pequenos conversamos com eles sobre as diferentes formas de famílias, e que todas tem que ser respeitadas", declara Cecília.
Apesar de ainda serem alvo de interrogações sociais em determinados contextos, o casal afirma não ter enfrentado preconceito direto, e reconhecem a importância da representatividade. "Vivemos em uma sociedade plural, onde tem pessoas de diversas cores. Muitas pessoas, por não ter contato com famílias como a nossa, se restringem ao mundo de sua imaginação de como seria a rotina, imaginando por vezes que seria muito diferente da de uma família hétero", apontam.
Essa vivência também dialoga com o que observa o médico especialista em reprodução humana e diretor da Clínica Mãe, Dr. Alfonso Massaguer, responsável pelo acompanhamento do casal. Para o profissional, os principais desafios no início do processo estão mais ligados à informação e às escolhas do que a barreiras clínicas.
"As mulheres que a gente atende, a maioria já entende um pouco do assunto, já leu a respeito. As dúvidas que existem às vezes é se as duas vão estimular ovulação, qual que vai gestar primeiro, depois a escolha dos sêmen também traz um pouco de ansiedade e é claro um pouco de dúvida também para saber qual sêmen escolher", descreve o médico. Ele também aponta que, em alguns casos, a possibilidade de envolvimento de terceiros na parentalidade ainda gera dúvidas.
Sobre os avanços da reprodução assistida, o especialista ressalta o desenvolvimento técnico e a transformação social que acompanha esses procedimentos. “Participar da formação de uma família me deixa muito orgulhoso. É muito bonito ver como os avós, por exemplo, passam a vivenciar essa nova realidade com felicidade”, afirma.
Ao ser questionado sobre a sensação de acompanhar a concretização do sonho de famílias LGBTQIAPN+, Massaguer reforça que, do ponto de vista médico, não há distinção entre os pacientes. "A reprodução assistida enxerga esses casais como qualquer outro. Hoje, tratamos todos da mesma forma, independentemente da configuração familiar", explica.
O especialista também destaca que, em muitos casos, casais homoafetivos chegam ao tratamento sem dificuldades biológicas, o que torna o processo mais direto do ponto de vista clínico, e ressalta avanços, como a possibilidade de gestação compartilhada, que permite que duas mulheres participem ativamente da construção da maternidade.
Para Cecília e Thalyta, a experiência da Fertilização In Vitro (FIV) representa mais do que um procedimento médico: é a concretização de um projeto de vida construído a dois. E, para o Alisson Massaguer que acompanhou essa jornada, é também a confirmação de que a medicina reprodutiva tem ampliado não apenas possibilidades biológicas, mas também o próprio conceito de família nos dias atuais.

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