Entrevista

De garota de programa à podcaster: Abhiyana transforma sexo em discurso de autonomia

Multiartista, de 50 anos, transforma erotismo em educação sexual através do Textos Putos
05/03/2026 17:19
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Abhiyana(foto: Gal Oppido)

Abhiyana

A crescente popularização dos podcasts eróticos e audiolivros sensuais no Brasil tem provocado destaque à podcaster, escritora, e ex-garota de programa, Abhiyana, criadora do Textos Putos, projeto que vem conquistando ouvintes ao propor uma experiência erótica baseada na escuta, imaginação e na humanização do desejo.

Em entrevista exclusiva ao Observatório G, a multiartista, de 50 anos, reflete sobre o impacto do áudio como alternativa à pornografia tradicional, a importância do olhar feminino na produção de conteúdo adulto e como suas próprias vivências moldam sua narrativa.

Para Abhiyana, o crescimento do erotismo em áudio representa mais que uma tendência de mercado, mas também como mudança. "O conteúdo erótico em áudio é uma grande saída pra libertar as pessoas. A pornografia nos aprisionou muito, por reduzir as pessoas. Existem produções mais interessantes, que contemplam mais o prazer real, feminino, mas a pornografia tradicional trata os nossos corpos num lugar de objeto", afirma.

Ela, por sua vez, destaca a desigualdade nas representações, a princípio, nas relações heterossexuais. “É muito raro você se deparar com vídeos em que, numa relação hétero, um homem está focado no prazer da mulher, enquanto é super comum ao contrário”, diz.

Tabu sobre o erotismo

Ainda que reconheça os avanços, Abhiyana descreve a fragilidade sobre as estruturas de poder que ainda moldam o mercado. "É um possível caminho, mas ainda tem chão para a gente conseguir mudar essa lógica, que é historicamente dominada pelo olhar masculino. O patriarcado ainda tem muito poder", avalia. Ela também aponta o peso cultural e religioso na manutenção do tabu. "O sexo ainda é um tabu. Muitas religiões trabalham para fortalecer essa narrativa", indica.

Abhiyana
Abhiyana (Foto: Gal Oppido)

Textos Putos: histórias e vivências reais

No Textos Putos, as histórias relatadas por ela são reais e vividas pela própria. A decisão de transformar experiências íntimas em narrativa pública vem de uma relação antiga com o próprio desejo, onde descreve o próprio corpo como “corpo-ensaio”.

"Eu fui criando esse projeto colocando o meu corpo como um corpo-ensaio para viver, testar, contar, observar, trazer os prós e os contras de acordo com o meu ponto de vista, sempre buscando honestidade", reflete Abhiyana. Para ela, sua formação artística facilita essa exposição, pela sua formação em Artes Cênica e Comunicação Social: "É tudo pela comunicação, pelo palco, por aparecer. Tudo isso contribuiu pra que fosse fácil abrir um microfone e contar minhas experiências sexuais", diz.

Experiência como garota de programa

A fase como garota de programa também atravessa a escrita e o podcast, num campo ainda mais complexo da sua pessoalidade. "Me ensinou muita coisa, e me machucou ao mesmo tempo. Não é simples ser garota de programa. É uma linha muito tênue entre você fazer o que você quer e você fazer o que a pessoa quer que você faça", relembra.

Ela aponta o desequilíbrio estrutural presente em relações mediadas pelo pagamento, especialmente em contextos heterossexuais. "Quando alguém paga pra usar o seu corpo, a gente entra num território perigoso. Isso me fazia sofrer muito", descreve ela, que ainda assim, reconhece os aprendizados: "Eu tive experiências maravilhosas. Pude entender muita coisa sobre o sexo. Isso me ajuda na construção das histórias, me dá autonomia e autoridade para falar de certas coisas."

Educação emocional e sexual

Mais do que provocar de forma explícita através dos conteúdos eróticos, Abhiyana quer transformar, e acredita fielmente nessa conquista: "Eu vejo, através de depoimentos e relatos, que existe sim educação emocional e educação sexual. Sem dúvida."

Para a ex-garota de programa, falar de sexo com honestidade é um ato pedagógico: "Eu gosto de pensar que, através do meu podcast e dos meus livros, e não só de pensar, eu vejo isso através de depoimentos, de relatos, que existe sim a educação emocional e a educação sexual. Quando você se propõe a falar de sexo com simplicidade, amor e humildade, você está educando emocionalmente e sexualmente", conclui.

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Abhiyana (Foto: Gal Oppido)

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