(foto: Marina Faria)Dupê
O cantor Dupê apresenta ao público um novo capítulo de sua carreira, com o lançamento de Cangaço Sessions: Bahia Edition, projeto audiovisual gravado na sua terra natal, em Salvador (BA), que destaca suas origens e consolida sua proposta estética de unir forró, trap, rock e elementos urbanos.
O artista, que viralizou no TikTok ao misturar rap com ritmos nordestinos, ampliou essa fusão em um trabalho reforça a tradição e contemporaneidade, com nove faixas, revisitando clássicos de grandes nomes da música brasileira, como Pitty, Novos Baianos e Raul Seixas, reinterpretadas dentro de sua estética.
Em entrevista exclusiva ao Observatório G, Dupê reflete sobre suas influências, a força cultural da Bahia, onde ainda enfrenta preconceito pelo forró e o impacto que parcerias importantes tiveram em sua trajetória. Para ele, sua identidade artística nasce diretamente das vivências da cidade e do ambiente familiar em que cresceu.
“Essa mistura de rock e estética urbana com forró, brega e regionalidade veio muito daí. Salvador é um berço musical muito forte, artístico. A Bahia toda é um lugar diferente, então sinto que já nasci assim”, explica o cantor. Em Cangaço Sessions: Bahia Edition, Dupê destaca o forró num espaço de diálogo com gêneros urbanos contemporâneos. Para ele, essa escolha também carrega um posicionamento cultural.
“Total. Eu quero trazer de volta o destaque do forró e da regionalidade nordestina no mainstream brasileiro, junto com essa atitude rock, jovem e underground”, justifica. Apesar da crescente popularidade de misturas musicais nas redes sociais acompanhada pelo sucesso, Dupê afirma que o preconceito contra gêneros nordestinos ainda é uma realidade.
“Demais. O forró e a cultura nordestina são extremamente discriminados e xingados, só por serem da forma que são. Quando eu pegava músicas de rock internacional e colocava batida de forró, recebia ameaças e xingamentos desproporcionais”, conta.

Dentre as propostas mais destacadas do projeto, está a transformação de clássicos da música brasileira em versões com uma roupagem nordestina. Segundo o artista, o processo foi natural: “Foi como cantar algo que eu já conhecia, só que da minha forma. Todos esses rocks, inclusive o rock baiano, já faziam parte de mim. Meu dever era só expressar o que eu estava ouvindo, do meu jeito”, diz.
Um dos momentos de virada na carreira do cantor aconteceu pela sua participação na faixa 'A Ceia', lançado pela cantora e drag queen Pabllo Vittar, em seu EP de Natal, Prazer, Mamãe Noel, em novembro de 2025. O convite, por sua vez, trouxe uma maior visibilidade de seu trabalho e aproximou seu nome de novos públicos.
“Mudou tudo. Eu sinto que Pabllo me deu a luz. Eu comecei a existir depois desse som. Tenho nove anos de carreira, de luta para viver de música, e a oportunidade que ela me deu foi o maior presente que recebi”, enaltece ele. Esse alcance, inclusive, também o colocou em posição de visibilidade entre o público LGBTQIAPN+, ao qual ele enxerga com gratidão, e também, com grande responsabilidade.
“Eu tenho uma enorme admiração por esse público, porque foram as pessoas que me deram uma chance de ser visto. É um público muito criativo, artístico e sensível”, diz Dupê. Ele admite, no entanto, que existe um equilíbrio delicado ao dialogar com a comunidade: “Ao mesmo tempo que quero demonstrar carinho e apoiar a causa, existe o medo de ser interpretado como alguém que está se aproveitando disso para viralizar. Ultimamente vivo buscando esse equilíbrio”, confidencia.

Dupê define sua sonoridade como parte de um movimento que chama de 'New Brega', inspirado na ideia de trazer novas roupagens das tradições musicais para o presente, semelhante ao impacto provocado pelo pernambucano Chico Science (1966-1997) com o manguebeat. “O que define esse subgênero é a modernização do passado, como fez Chico Science em sua época. É uma modernização constante da cultura de raiz. A gente está numa era urbana, futurista, de inteligência artificial e tecnologia. O Cyber Cangaço nasce disso. É a nova geração da música brasileira”, pontua.

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