(foto: Reprodução/Instagram)Luísa Victória
As cotas trans são uma das ações afirmativas que reservam vagas para pessoas transgênero, travestis e não-binárias em processos seletivos de universidades públicas. Ao longo dos últimos meses, um debate se intensificou acerca da precisão dela nestes espaços.
Atualmente, no Brasil, pelo menos 38 universidades federais e estaduais ofertam cotas trans a partir da graduação, como parte do processo seletivo, e numa forma de enfrentar desigualdades históricas de acesso à educação superior e ao emprego.
No Rio Grande do Sul, a política de cotas trans gerou um embate judicial que chamou atenção desde que foi anunciada, e uma ação popular levou a Justiça Federal a anular a criação das cotas específicas para pessoas trans, assim como o cancelamento de matrículas realizadas por meio dessa política.
Em meio a embates ideológicos e judiciais, a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) é a única instituição pública do estado que aprovou a medida em 2021, e implementou no ano seguinte. O percentual destinado a essa população é de 2% das vagas, ao lado de cotas para indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e outras categorias sociais vulneráveis.
A aprovação de Luísa Victória, de 19 anos, em primeiro lugar no curso de Odontologia, no campus da cidade de Araruna, interior do estado, entre estudantes oriundos da rede pública, vai além de uma conquista individual. A jovem trans, que mora em Cacimba de Dentro, se torna símbolo de uma política pública, e celebra com emoção: "Pra mim foi algo inexplicável. Não foi só passar, foi passar em primeiro lugar! Eu senti que não era só uma conquista individual, mas uma resposta pra tudo que disseram que eu não conseguiria. É como provar que nós pessoas trans somos capazes, sim, quando temos oportunidades", declara.
Em um cenário nacional marcado por altos índices de evasão escolar entre travestis e transexuais, essa história revela o impacto concreto das políticas afirmativas. "A maioria das pessoas trans nem consegue concluir o ensino médio, então chegar numa universidade pública e ainda em primeiro lugar, mostra que o problema nunca foi falta de capacidade, e sim falta de acesso e acolhimento", diz.
Para Luísa, a política de cotas não se define apenas como uma porta de entrada, mas um gesto simbólico de reconhecimento. "Foi um reconhecimento da minha existência e da minha trajetória. Ser trans no interior é muito mais difícil, a gente enfrenta preconceito desde cedo e, muitas vezes, não se sente pertencente a lugar nenhum", destaca.
A trajetória até a aprovação, no entanto, foi marcada por desafios: conciliar o processo de transição de gênero com a preparação para o vestibular exigiu uma força emocional gigantesca. “Foi muito difícil. A transição mexe com tudo: emocional, psicológico, social. Muitas vezes eu estava lidando com preconceito, insegurança e ansiedade, mas ao mesmo tempo precisava estudar e dar conta da pressão”, confessa.

A escolha pela Odontologia, para Luísa, também dialoga com sua vivência enquanto mulher trans, ao qual recorda os desrespeitos em espaços de saúde, e que a incentiva a busca em moldar sua perspectiva profissional. “Eu sei o que é não ser respeitada, não ser ouvida e ter medo de procurar um serviço de saúde. Então quero ser uma dentista que acolhe, que respeita o nome, a identidade e a história de cada pessoa”, projeta.
Segundo ela, a ingressão de uma pessoa trans no ensino superior ocasiona um impacto que ultrapssa o campus. A trajetória da jovem, em um contexto geral, reforça que a política de cotas não se limita à ocupação de cadeiras em sala de aula, mas pela garantia da dignidade, cidadania e o direito de sonhar - algo que, no país que mais tenta silenciar essas vozes, ainda é um privilégio distante. "Quando uma pessoa trans entra na universidade, isso muda histórias, famílias e comunidades inteiras. A universidade pode e deve ser um instrumento de transformação social e de garantia de dignidade pra pessoas trans", conclui.


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